quinta-feira, 5 de fevereiro de 2015

Foi um susto só: “Meu Deus é Adeth!”

Vera Barbosa, uma companheira dos tempos de Diário de Pernambuco, posta em seu Face comentário ilustrado com uma bela máquina datilográfica. Aquilo, ao tempo, era uma das grandes invencionices humanas. Vera se iniciara no jornalismo utilizando-se daquela inovação para elaborar suas laudas, cumprindo pautas da editoria: “A partir das 17h, quando os repórteres chegavam das pautas era uma barulheira infernal. Além de todas as máquinas em ação, o telefone e o telex completavam a sinfonia na pressa para a edição do jornal do dia seguinte”, lembra. Entrei no clima e aproveitei para lembrar Adeth Leite, jornalista “das antigas”, também esmerado na arte de informar. Na redação do DP a máquina de Adeth era intocável. Só ele a manuseava. Punha um cadeado, creiam, para evitar uso indevido. E ai de quem a tocasse!
Ontem postei um comentário: “E Adeth Leite mantinha um cadeado em sua máquina de escrever. Só ele a usava. Morreu na Redação do DP: Lembra, vera?”. E ela responde: “Lembro não, Carlos, mas, o corre-corre pra pegar uma máquina era tão grande que quem conseguia uma, não saía nem pra ir ao banheiro. Corria o risco de quando voltar encontrar a máquina ocupada e a lauda com a matéria iniciada no lixo”.
Para Adeth Leite a máquina de escrever fora sua extensão corpórea. É fato que ele, certa tarde, apareceu vestindo um terno azul marinho. Diante de mim desceu do elevador, no segundo andar, e adentrou a redação. Eu entregara umas correspondências a dona Maristela Souto, secretária de Antônio Camelo, diretor. Desci achando estranhos aqueles trajes e os passos lentos do velho jornalista. Depois a notícia: “Adeth passou mal, saiu quase morto da redação!”. Sua morte se confirmara ainda naquela tarde. Viera predestinado àquele desfecho, creio.
Naquela noite perdi o último ônibus para Tejipió, resolvi abrigar-me na redação. Dava pra dormir ali, fazia silêncio, era seguro... Logo à entrada, Vera Barbosa deve lembrar, havia uma sala e um banco servido à espera. Foi nele que deitei e adormeci. Lá pelas tantas os aparelhos de telex disparam com as agências trazendo uma avalanche de notícias. Lembrei de Adeth, fora atendido naquele banco e praticamente morrera ali. Fechei os olhos, tremi, gelei, quis gritar, não consegui. Aqueles instantes duraram um século. Em meio àquele pânico, criei coragem e levantei, ainda de olhos fechados. Ao mesmo tempo abre-se a porta, alguém entra correndo. “Meu Deus, é Adeth!”, pensei. Fui atropelado por Bezerra, subchefe das oficinas que viera em busca das últimas notícias, o segundo clichê: "Aaaaaaai!". Foi um susto só. Bezerra também lembrara Adeth.

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