sábado, 21 de fevereiro de 2015

Enganei meu pai

Compartilhei, lá no Face, uma genial aula de sinuca. Aquilo me fez lembrar um episódio com meu pai e alguns amigos num jogo de dominó. Era ainda criança travessa, ficava dando palpites em meio aos adultos, naquelas noites onde televisão era coisa rara não tendo tanta interferência em nossas vidas. Cadeiras nas calçadas, à tardinha e em noites de verão fazia parte do cotidiano, mesmo numa metrópole como Recife. Morávamos nos arrabaldes, conhecíamos toda aquela vizinhança, diferentemente de hoje, principalmente no que tange às habitações verticais. Quanto ao jogo de dominó lembro que enganei meu pai e dele levei uma carreira seguida de uma peia. Escondi-me num pé de goiabeira. A mesma que serviu um cipó para meu pai ir à forra. Até os dias de hoje, nem mesmo em casa, sento em mesa de jogo qualquer.
Só sei que foi assim! Noite de céu estrelado e a brisa mansa, soprada dos coqueirais, era convidativa aos velhos e costumeiros tamboretes e um tabuleiro ao centro servia de aconchego às vinte e oito pedras brancas feitas de osso. Em “O mundo e suas voltas” certamente encontraríamos Ana Débora explicando que “essas pedras têm forma de paralelepípedo; Que o nome é provavelmente de origem latina ‘domino gratias’ que significa ‘Graças ao Senhor’; Que o jogo é provavelmente de origem chinesa atribuindo-se sua criação a Hung Ming, um santo soldado chinês que viveu de 243 a.C a 182 a.C”. Ana iria mais adiante, eu fico por aqui, preciso ir ao cerne da questão e explicar meu malfeito.
Já me introduzira entre os grandes jogadores da redondeza, fazia dupla com seu Flaviano, um mentiroso que jogava de verdade. Meu pai – o bom e velho Manoel Soares – fazia dupla com seu Mané Mago. Eles perdiam de cinco a zero e tudo indicava que levariam uma “buchuda”. Àquela altura do jogo eu contava apenas uma pedra na mão, prestes a bater. Seu Flaviano, meu parceiro, faz sua jogada; Mané Mago “toca”, faz o sinal característico de quem não dispõe de pedra que se encaixe ao jogo. Eu “bato”, mas permaneço calado. Não faço alarde da batida. Aí meu pai, crente que se livrara da “buchuda” explode num grito:
- Batiiiiiiiiiiiiii!
Eu abro as mãos sobre a mesa e, ironicamente, retruco:
- Como? Se eu não tenho mais pedras!

2 comentários :

  1. Gostei do retorno! Bom jogador você era, e hoje,ainda é?

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    1. É como disse lá acima, prima Jurema: Nunca mais me sentei à mesa de jogo qualquer.

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