sábado, 9 de agosto de 2014

Tributo ao meu pai!

Seu Soares era homem rude, dócil, intempestivo, festivo! Veio do mato e o trouxe consigo. Assimilei todos os seus defeitos e qualidades. Sou o filho mais assemelhado a ele e, por isso mesmo, aquele que lhe apresentava o contraditório nas familiares ou em questões quaisquer. Do mesmo modo que ele ganhei o mundo ainda cedo, buscando realizações e sobrevivência. Essa simbiose nos aproximava e nos afastava. Éramos intemperantes! Mas aquele homem era de uma grande alma. Criei-me vendo a casa sempre cheia de amigos e muita música naquela radiola de pés, onde os discos (long-plays) deslizavam um a um, uns sobre os outros e a agulha fazendo a leitura em seus sulcos: A música enchia a casa de som e alegria. Nossa morada até parecia casa de passagem, gente todo dia, o ano inteiro. 
Era generoso com os seis filhos mais sobrinhos e sobrinhas que por lá chegavam, ficavam até casarem e tomar seus rumos. Outros, sem parentesco, tinham o mesmo acolhimento e se tornavam membros da família. Homem “de pouca leitura, quase nada”, como dizia, trazia consigo na volta das jornadas de trabalho, à noitinha, seu jornal. Eu, mais velho dos sobreviventes, geralmente fazia as leituras. Como usava o transporte ferroviário tinha pontualidade nas chegadas, bem próxima às seis horas. Tínhamos o hábito da Ave-Maria, transmitida pela Rádio Jornal do Commercio e o Terço, em seguida, na Capibaribe. Papai chegava, corríamos para o abraço e sentíamos aquele seu cheiro peculiar, a nicotina vinha junto, saída dos seus poros. Ainda suado, nos abraçava, estava em casa! Dali a pouco o café era servido.

A herança! Nos festejos carnavalescos, juninos e natalinos, na rua em que morávamos, era papai quem tomava a iniciativa das ornamentações e comilanças. Através dele tomei gosto – sem que me desse conta – das valiosas representações da cultura nordestina. O bumba-meu-boi, cavalo-marinho, quadrilhas juninas, pastoris, reisados e o repente e seu aboio (principalmente em dias chuvosos) me foram apresentados pelo gosto de seu Manoel Soares de Almeida. Adultos e crianças se revezavam na tarefa de cooperação laboriosa. Ao lado da casa 87, Rua Arês, em Tejipió, nos arredores de Recife, havia um terreno baldio onde seu Soares juntava a meninada para campinar até que o transformou em um campinho de futebol que servia à gurizada de todo entorno. Ali era lugar de diversão e as brigas, nas disputas, ficavam a cargo do seu arbitrar. Eu, menino amarelo buchudo, sentia ciúmes da atenção dividida com toda aquela meninada. Ao contrário do que muitos pensam, essa foi a lição que me levou da inquietação social à militância de esquerda: Dividir para somar! No mais sublime sentido da frase.

Saudosa memória, boas lembranças!

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