quinta-feira, 18 de dezembro de 2014

Coisa rara de se ver

Ontem, a noite foi pra lá de especial, enchi os olhos e a alma com a arte dos formandos da PROCULT - Pró-Reitoria de Cultura da Universidade Estadual da Paraíba – UEPB. Falo da 3ª Mostra deArte do Centro Artístico Cultural, culminância dos cursos de Dança de Salão, Pintura, Percussão Regional, Canto Coral, Violão, Sanfona, Balé Clássico e Teatro. Parecia final de campeonato de futebol, guardadas as devidas proporções, posto que o Teatro Severino Cabral, palco do evento, oferece 586 lugares, em sua parte central, além dos 58 camarotes. Não tenho dúvida, o Severino Cabral recebeu, ontem, um dos seus maiores públicos, desde a inauguração, em 30 de novembro de 1963.
Os números falam por si. Apresentaram-se mais de 500 alunos/formandos e, como se não bastasse o espetáculo, em si, mais de uma tonelada e meia de alimentos não-perecíveis foi arrecadada, trocada por ingressos e doadas a instituições assistências de Campina Grande. A formação de público para teatro e afins é uma preocupação que trago comigo. E foi justamente o público de ontem o grande diferencial, mesmo levando-se em conta o alto nível das apresentações. Outro ponto positivo, a meu ver, foi a heterogeneidade nos gêneros, instrumentos e faixa etária dos formandos.
Não há como não enfatizar e, além disso, enaltecer a participação de 17 alunos do corpo de balé da UEPB, são esperancenses e integram o antigo PETI (Programa de Erradicação do Trabalho Infantil), que hoje forma outra sopinha de letras: SCSV (Serviço de Convivência e Fortalecimento de Vínculos). A plateia “veio abaixo”, após o anúncio do corpo de balé da UEPB, pelo cerimonial de Saulo Queiroz, coisa rara de se ver numa plateia, também, tão heterogênea.
Parabéns a UEPB, através do seu Magnífico Reitor, o também artista Rangel Júnior. Parabéns às nossas crianças que tanta esperança nos trazem, através de tão nobre arte!

domingo, 14 de dezembro de 2014

O ódio que assusta!


Tenho vindo pouco ao face, blogs e à net. Sou seleto quanto à programação televisiva, mas vez por outra me deparo com o golpismo que circunda a democracia, conquistada a duras penas, com sangue, suor e lágrimas de brasileiros que acreditavam ser possível sonhar em um mundo sob o prisma da liberdade, igualdade e fraternidade.
Quem vem à rua, ou às redes sociais, sugerindo um golpe militar como saída para a conjuntura brasileira, desconhece a história. No mínimo nunca ouviu relatos daquilo que se apresenta como o mais triste período do Brasil República – sem se esquecer do período escravocrata da nossa história −, onde o “Ame-o ou deixe-o” era a senha para o exílio, às mutilações nas torturas (físicas e psicológicas), os desaparecimentos e, por fim, às mortes de líderes estudantis, sindicalistas e políticos.

Informo, a todos os que ao golpe recorrem, que o único crime cometido por esses tantos brasileiros, cujas famílias ainda hoje clamam por justiça, ainda hoje sem notícias de muitos dos seus entes, foi a defesa da democracia. Que os defensores de um golpe se coloquem, por um breve momento que seja, na pele desses bravos homens e mulheres brasileiras. Jovens, em sua maioria, com carreiras promissoras em suas áreas de atuação: jornalistas, teatrólogos, artistas, compositores ou trabalhadores urbanos e rurais dados à luta por um Brasil dos brasileiros, livre da escuridão instaurada em 64.
Por fim, saibam o que ocorreu a Gregório Bezerra, um dos arautos da resistência ao golpe militar de 64 que, preso em Cortêz, zona canavieira de Pernambuco, foi transferido para o Recife, onde foi torturado e arrastado pela praça do bairro de Casa Forte, com uma corda no pescoço, e teve os seus pés imersos em solução de bateria de carro, ficando em carne viva, e este espetáculo foi exibido pelas televisões locais à época. Não encham a boca, as ruas ou as redes clamando pelo golpe. Leiam o relatório final da Comissão Nacional da Verdade
:http://bit.ly/relatoriofinalcnv

Esse ódio assusta!

sábado, 13 de dezembro de 2014

Aquela sanfona branca...


A mãe não lhe queria embrenhado pelos sertões nordestinos, animando as festas de apartação, derruba de gado, casamentos, batizados, aniversários como se antecipando estivesse sua arribada para Fortaleza e Minas Gerais, no serviço militar e, daí, para o Rio de Janeiro e São Paulo, desenhando sua trajetória de sucesso com o encantamento de sua arte. Foi assim que reagiu, dona Santana, ao contrário do que muitos pensam, ao ver aquele menino se engraçando do fole de oito baixos do velho Januário. Claro que falo de Luiz Gonzaga do Nascimento, aquele menino sabido que Exú, um pedaço terra encravado no alto sertão pernambucano, presenteou ao mundo em 13 de dezembro de 1912.

Foi precisamente no povoado de Araripe, fazenda Caiçara, que Januário e dona Santana ouviram o primeiro choro do pequeno Gonzaga, o matuto mais astuto que a música brasileira concebeu. Naquele ambiente de trabalho roceiro, a lida com o gado, a passagem árida da seca e as andanças com o velho Januário, arrastando seu fole acompanhado pelo toque do triângulo e zabumba, foi que Luiz encontrou a fonte inesgotável de poesia e encanto pelas coisas da terra: sua gente e seus costumes.

A genialidade de Gonzaga e reconhecimento por sua obra nunca o afastaram de suas raízes. Luiz, sem dúvida, tinha a exata noção do que representava, mas seus traços nobres não ficaram pelo caminho. O sotaque nordestino que fazia questão de enaltecer e outros atributos ele levou consigo vida afora. Ouvi de Gildson Oliveira e Rui Cabral ao tempo de minha estada no Diário de Pernambuco e Jornal do Commercio, respectivamente e, a bem pouco tempo, em conversa de camarim com o consagrado Pinto do Acordeom com décadas na companhia de Gozaga , relatos de suas vivências com o Rei do Baião. O tino artístico, a perspicácia, o humor inteligente, a simplicidade e a generosidade eram, segundo os depoimentos, as maiores virtudes do velho Lua.
E eu canto com Benito Di Paula: “Aquela sanfona branca / Aquele chapéu de couro / É quem meu povo proclama / Luiz Gonzaga é de ouro / Aquele tom nordestino / A voz sai do coração / É ele o rei do baião, é Luiz / É cantador do sertão É filho de Januário / É quem canta o Juazeiro / É festa, é povo, Luiz alegria / Luiz Gonzaga é poesia”.

domingo, 7 de dezembro de 2014

Meu vírus e o pensamento!

Meu relógio marca o tempo, em seu compasso, me orienta ao meio-dia e meia. Quase encerrando resenha de um texto kantiano “Que significa orientar-se no pensamento?”, sou testemunha auricular de um ruído que, certamente, passa despercebido por muita gente, brasis afora. Rafiro-me ao ruído do “Esquenta” do Plim-plim. 
Ao contrário do que muitos pensam, muitos pensam ao contrário, não estou de olho grudado na TV, sou vítima passiva desse mal gosto e descomprometimento com a vasta, rica e pomposa cultura brasileira. Sou nada ouvidos pra esse lixo televisivo que, recorrentemente, contexto. Mas o som se propaga pelo ambiente e sou atingido de cheio com os gêneros e personagens tão batidos e repetitivos, como se o Brasil só produzisse essa “coisa”. Aqui não falto com respeito aos gêneros musicais e seus personagens, mas indigno-me com tão poucas opções para uma TV que “comete” uma programação nacional, padronizando hábitos e costumes, colonizando – por assim dizer – com o viés burguês de quem detém o quarto poder. Essa herança maldita tem origem no Golpe de 64, com o advento das redes televisivas. E parece que conseguiram aniquilar o pensamento e bom gosto, pelo menos de boa parte da nossa gente.

Indigno-me por saber do quanto produzimos em arte, detentores que somos das mais variadas manifestações culturais. Antes das redes nacionais de TV, produzíamos rádio-teatro, tele-novelas, programas jornalísticos, humorísticos... na radiodifusão e canais locais de TV. Meio século dessa colonização “sorrateira” nos faz imaginar, até, que não existimos neste âmbito da produção cultural. Nossos artistas e agentes culturais de modo geral, técnicos, comunicadores, nas diversas mídias, não existem nessa ótica perversa da colonização que nos massacra.

Aproveito e jogo praga: Ah se um dia fôssemos infestados pelo vírus da indignação ou que nos orientássemos no pensamento!

domingo, 30 de novembro de 2014

O refúgio da leitura

Dia enfadonho de trabalho árduo e pouco lazer. A manhã desse domingo foi de céu claro, sol forte e convidativo às tarefas já tão corriqueiras no, agora, Casarão Silvestre Batista, assim batizado pelo colega Evaldo Brasil. O enfado nos convida a permanecer em casa com familiares e amigos. TV ligada, não dá para sair em busca de uma boa música, destoando de todos que optam pela programação televisiva.
Aí ocorre aquela coisa, inevitável, propiciada pela comodidade do controle remoto: busca-se algo diferente, que seja do agrado geral. Remota, sabe-se, é a possibilidade de se encontrar algo diferente e, mais difícil ainda, agradável. A TV aberta abriu falência faz tempo, muitos ainda não se deram conta, inclusive os próprios diretores de programação. O público fica a reboque dessa má qualidade, habituado que está com o chamado gosto médio, tão combatido pelo saudoso Ariano Suassuna. Mas, justiça seja feita, nem tudo se perdeu neste domingo. Em meio ao lixo, uma pérola! Ouço uma chamada inicial de uma matéria tratando da possível melhor nota do Enem 2014. Achego-me e me junto aos demais telespectadores para assistir ao depoimento de João Vitor, um jovem cearense de apenas 16 anos, estudante de escola pública, que cometeu a proeza de acertar 172 das 180 questões propostas pelo Enem: João acertou 95% da prova!

A vida do João, a dedicação de sua mãe frente às dificuldades de mãe/provedora da família, já é, em si, uma proeza. Mas esse menino sabido, diz ter sido vítima de bulking, por ter o habito da leitura. A biblioteca onde frequenta é seu melhor refúgio. O Brasil de tantos brasis, ao contrário do que muitos pensam, precisa aprender a ensinar aos filhos dessa Pátria-Amada-Mãe-Gentil que só há uma a saída:
O refúgio da leitura, como bem faz esse João!

quarta-feira, 26 de novembro de 2014

Último adeus



Era ainda muito criança quando a conheci. Lembro da viagem, estrada afora, cujos detalhes se foram, apagados pelo tempo. Viva, muito viva, tenho à memória, todo aquele cenário da Rio Una que me acolheu nos idos da década de 60.  Antônio Florisvaldo, meu irmão mais velho, me levara para conhecer sua noiva e familiares, o ano era 1962.


O lugarejo localiza-se no município de Barreiros, zona canavieira, ao Sul de Pernambuco. Um vasto campo arborizado, gado pastando, carros-de-boi fazendo o pequeno tráfego de canas e mangaios enchiam minha visão pueril. Trago na memória, bem fresquinhas, as lembranças do banhos com sabonetes Eucalol, dos quais ainda sinto o cheiro ao fechar os olhos. Os filmes de Chaplin, do Gordo e o Magro, o amendoim à entrada do pequeno cinema... Tudo, tudo às expensas dos anfitriões.



A vila de Rio Una abrigava, em seu casario, os trabalhadores da usina do mesmo nome. Seu Manoel Fernandes, sogro do meu irmão e pai de Graça, a noiva, era alto funcionário na Rio Una com suas caldeiras e moendas já em processo de falência. Era homem de fisionomia fechada contrastando com seu largo sorriso. Mas é de Dona Josélia que pretendo lembrar. Aquela mulher de voz branda, traços, passos leves e finos gestos, era por assim dizer uma verdadeira lady inglesa. Este contato com dona Joselita (assim a tratávamos) abre, para mim, uma janela para o mundo da polidez. Não era de se notar que aquela senhora fosse mãe de seus oito filhos com seus tantos afazeres de dona-de-casa.


Após a travessia, lembro bem, aceno aos que se encontram na outra margem do rio. Lá, também, estava dona Joselita. Havia quase trinta anos quando reencontro dona Joselita com minha cunhada Gracinha, o sobrinho Toni, alguns filhos netos. Mais uma vez, agora na longínqua Santo André, ABC paulista, aceno com mais um adeus.


Hoje, pela manhã, recebo notícia de sua partida aos 94 anos: Último adeus!

domingo, 23 de novembro de 2014

Seu Lunga: Só fazendo de conta!

Diante de tarefas exaustivas, lendo, ruminando e elaborando trabalhos da graduação em Filosofia, além de outras labutas cotidianas, não me tenho dado ao prazer de escrever "Ao contrário do que muitos pensam". Esta tarde, porém, numa dessas garimpagens pela Net e suas redes sociais, deparo-me com uma notícia que me faz pausar os trabalhos e escrever algo a respeito.

Recorro, então, ao primeiro endereço que me sirva um dicionário para entender o significado da palavra risível. Lá encontrei, por exemplo, que “Risível significa qualquer coisa que provoque, cause e que seja digna de riso, é qualquer acontecimento, fato ou pessoa que faça um indivíduo rir. Risível pode ser atribuído a uma pessoa específica, ou a fatos que aconteceram” Outra versão sugere que “Risível também pode ser usado em um sentido pejorativo, como algo que seja ridículo, grotesco, que faz rir, mas não em um sentido agradável, e sim rir de um fato patético, que não necessariamente é cômico”.


Não importa em qual versão se enquadrava Joaquim dos Santos Rodrigues, importa, sim, o quão importante ele é e continuará sendo para nossa cultura nordestina. Figura “folclórica” cuja fama transcendia o Nordeste, Seu Lunga, dotado de muita sabedoria e esperteza, nos brindou por muitas décadas com suas tiradas “mal-humoradas”, pérolas de alguém que – ao contrário do que muitos pensam – vivia muitíssimo de bem com a vida.

Fosse perguntado, por algum desavisado, sobre se morrera, realmente, certamente que Seu Lunga responderia a seu modo e de bate-pronto, com toda verve do humor latente e voraz: 

“Morri não, peste: Tô só fazendo de conta!”